

O filme traça o retrato breve de um forasteiro solitário que, "como nos westerns" chega um dia a um país lentíssimo e, munido de um caderno e um gravador, vem acordar a voz rude e silenciosa do seu povo, "fio longínquo (de uma) fonte subterrânea que atravessa tempos infinitos". Outro forasteiro, Pierre-Marie Goulet, segue essa voz, "pausada e inquieta estrela de pastor, respondida pelo grito do alto – clarão de trovoada que lentamente se suaviza nas cores do entardecer; e esse grito feito canto inesperado repercute-se no coro plano dos baixos, firme e tranquilo como uma certeza".
E de repente, o milagre acontece. A voz ganga um rosto múltiplo e humano, fitando-nos com tal transparência e tal verdade que temos de baixar os olhos com vergonha de todas as nossas infidelidades. E quando os erguemos de novo é o nosso próprio rosto e inalterado que está diante de nós.
De sítios assim, como de certos poemas, voltamos pessoas melhores, em coincidente e literal paz com o mundo, religados de novo a tudo, como um cordão umbilical que nos prendesse a alguma origem perfeita. E, por um momento, somos enfim, do nosso exacto tamanho.
Manuel António Pina
in Visão



















